• Carol Lara

Partimos! Um pedaço de Provença e da Cote d'Azur

Se tem uma coisa que velejar ensina é a ter paciência e mudar de planos, o tempo todo. Assim foi nossa terça feira: apesar de estarmos todos prontos (e com frio na barriga) para partir, os ventos estavam fortíssimos – e ficamos esperando amansar pela tarde. Já tínhamos até guardado boa parte das nossas defensas, barco pronto pra sair, e nada do vento dar a prometida melhorada.

Nessa hora, apareceu a Michelle Auberg-Romero (nossa prefeita de PSL) com um convite para irmos ao supermercado (sim, pela 99ª vez na semana) e fomos eu e a Sandra com ela no Casino e depois no Netto. Eu adoro conversar com a Michelle porque ela é a mulher de 70 anos com mais jeito de 18 que eu conheço, mas com muita experiência, engraçada, boas histórias e principalmente muita alegria de viver. Tenho certeza que fez muito bem para a Sandra também, e voltamos para casa com meia dúzia de coisas, mas já nos conformando que não sairíamos naquele dia. No entanto, o Vincent apareceu com as habituais cervejas na mão, e fomos até o barco dele fazer o nosso “apero” final, já que protegemos os nossos barcos limpinhos e prontos para sair como duas cãs de guarda haha😛

A 4ª acordou prometendo. Tomamos café e começamos os preparativos finais. Devolvemos as defensas que pegamos emprestadas dos amigos, jogamos algumas coisas fora, começamos a testar os sistemas e motores, e a despedida finalmente aconteceu! De repente, as amarras não estavam mais nos muros da Port Navy Service, que foi nossa casa por tantos dias e meses, e já olhávamos a distância Port Saint Louis. Daqui para frente, só Deus sabe onde iremos parar.

Com a mudança dos planos, decidimos andar mais rápido e fazer a parada em Cassis ao invés de Carro. Era uma pernada razoável para uma primeira velejada com o barco, e a princípio tudo estava funcionando ok. Acontece que pegamos um mar grosso, ondas altas, vento forte, e a primeira velejada foi bem mais tensa do que esperávamos – muita atenção, surfando as ondas nos 45º e rizando velas (tornando-as menorzinhas para terem menos força) o tempo todo.

Como saímos uma hora antes do Per e da Sandra, quando chegamos em Cassis a nossa suposta ancoragem parecia não fazer sentido: diversos surfistas na praia! Quem quer ancorar com um swell desses? Chamamos eles no rádio e mudamos nossa ancoragem para o Calanque D’em Vau, que parecia mais abrigada dos ventos que sopravam.

Eu acabei não conhecendo Cassis, então não posso falar nada, mas essa ancoragem foi um presente para quem estava confinado há tanto tempo na marina: paredões de pedra dos dois lados, dando ares de um castelo digno do Tolkien, água absolutamente cristalina, e uma prainha no fundo maravilhosa – coisa divina mesmo. Nesta praia fomos de dinghy fazer nosso jantar coletivo, comemos frango assado, batatas e tomamos umas cervejinhas.

A ancoragem, apesar de protegida tinha uma ondulação chata que chacoalhou a gente de lado bastante, e fez da nossa primeira noite algo bem mexido. O Fernando, por precaução, optou por dormir na sala e ficar checando o aplicativo do anchor, pra ver se estava tudo bem.

A semana se desenhava como uma que precisaria ter sempre abrigo, com ventos fortes mudando de direção quase todos os dias. Por isso, nos deslocamos para uma baía chamada Six Fours Les Plages, onde encontramos um outro barco de um amigo dos meninos, o Lionel. O Lionel é francês e fala pouco inglês, mas é um velejador experiente e sabe das coisas por aqui. Uma graça de pessoa, e está ajudando muito a nos entendermos nesses primeiros dias. A parada em Six Fours foi super tranquila, e aproveitamos para fazer uma trilha em um parque que tinha na cidade, onde dá pra observar as montanhas super altas e a água azulzinha lá embaixo, fazendo prainhas inacessíveis. Na volta paramos em uma boulangerie recomendada pelo Lionel, e dividimos um maravilhoso croissant de amêndoas, levamos pão para casa e depois de jantar um churrasco nota 10 no Eagle, tivemos uma ótima noite – para finalmente descansarmos.

O Ben e a Roxane programaram a saída deles para sábado de manhã, e por isso, combinamos de voltar para trás para encontrá-los. O destino seria La Ciotat, que nos deixaria abrigados dos fortes Mistrais que soprariam domingo e hoje. A velejada já foi bem mais gostosa e calma, os ventos eram fracos então pudemos aproveitar todos os metros quadrados de vela que temos. Fizemos alguns jibes, velejamos com calma, e chegamos na La Ciotat por volta da hora do almoço, junto com uma chuvarada que fez da chegada e da ancoragem uma aventura a parte. Logo a chuva passou e almoçamos também no Eagle, e a notícia do Ben chegou: ele teve que voltar pois teve problemas com o barco, e tentaria novamente no domingo.

Com a ausência do nosso amigo e a chegada do mistral, no domingo, fomos passear por La Ciotat. Ah, vale contar que o nosso motor do bote anda dando trabalho – então temos contado com as constantes caronas dos amigos suecos – não sem antes tentar fazer funcionar o tal motor.

La Ciotat é uma graça de cidade. Tem um ar semi-arrogante por conta dos seus mega-yatchts, mas tem todo o charme provençal, com casinhas de janelas coloridas, milhares de restaurantes na calçada (aparentemente ninguém mais liga pro COVID aqui) e ainda demos sorte de ser domingo o dia da feira de rua, cheia de cacarecos e comidas gostosas. Mas, fomos mesmo fisgados por 1kg de moules et frites pela bagatela de 10 euros, que comemos chorando de alegria acompanhados por uma taça de vinho em um dos restaurantes próximos ao porto. Que escolha acertada! Foi muuuito gostoso. Depois, caminhamos por toda a orla da cidade, conhecendo as praias e verificando possíveis outros lugares para pararmos o Dinghy (paramos meio que clandestinos em uma marina aqui, mas como era domingo, ninguém se importou). Na volta, ainda me agraciei com um sorvete de framboesa, que era a coisa mais refrescante e deliciosa do mundo.

O jantar dessa vez foi aqui no Saba, preparei um porco assado com batatas, arroz, molho e salada, e aparentemente nossos amigos gostaram, porque não sobrou quase nada. No jantar combinamos nossos próximos destinos: queremos ir para Hyeres, La Badin e Porquerolles, e estamos torcendo para os amigos Ben e Roxanne, que acabaram não saindo domingo, chegarem a tempo de nos alcançarem, pois queremos muito sair dessa região onde venta tanto. Ainda assim, hoje, está bastante vento, então acredito que vamos curtir mais um pouco de La Ciotat, onde acordei feliz, cheia de barquinhos ancorados ao redor, e um mistral comendo solto🙂O restante da semana promete ser digno de um verão: sol, calor, condições boas de vela! Quem sabe eu não crio coragem de entrar nesse mar geladinho? Tomara! Bons ventos para todos!



Nossa popa dando tchau para PSL <3

17 visualizações
  • Instagram
  • Facebook

Sailing Saba - Charters, Turismo, Férias a bordo de um veleiro na Europa - Croácia e Sardenha