• Carol Lara

Hyères, Porquerolles e o Ladrãozinho

Tenho adorado cada vez mais essa coisa das estações do ano bem definidas. Mal passou o solstício de verão e o sol e o calor começaram a dominar nossos dias.

Voltamos na segunda feira para o nosso QG em Hyères, na frente da Plage des Pesquiers, que é muito conveniente, já que está muito próxima ao porto, tem praias longas de areia, e um chuveirão logo na chegada. Assim, começamos a preparar tudo para levar nosso motor de popa para a revisão – e isso envolveu o aluguel de um carro. Por aqui tem um serviço tipo Uber onde você pode alugar o carro de outra pessoa – e é mais prático e mais barato que alugar um carro de locadora. Na 2ª mesmo encontrei um carro grande o suficiente por aqui, e na 3ª cedo eu e o Fernando fomos caminhando pegar o nosso possante. Combinamos com os nossos já costumeiros amigos Sandra, Per e Vicent de usarmos o carro para fazer compras depois de levar o motor – mas para garantir minha amada coca-zero, logo após pegar o carro já passamos num Intermarché e fizemos a primeira viagem de Dinghy, lotadinho de garrafas – e investimos numa raquete de frescobol, confiando no verão que se apresenta e também em praias de areia – afinal, frescobol com pé doendo por causa das pedrinhas, não vai ser algo muito prazeiroso né?

Voltamos para a Plage des Pesquiers e embarcamos todo mundo e o motor de popa no nosso carro. A primeira parada foi no Jose Moteurs, autorizada Honda, para deixar o ditocujo. Depois, rumamos felizes da vida para a Ikea – nossos amigos suecos estavam sem a sua preciosa Lingonberry Jam, que eles comem com carnes, e sentindo saudades de casa – então ir na Ikea e ver todos aqueles nomes que para a maior parte da turma parecem nomes escolhidos para não fazer sentido nenhum – menos para eles, suecos, deu aquela subida na moral da turma toda – e a alegria já tomou conta de todos, especialmente porque almoçamos no restaurante da Ikea e comemos as já tradicionais almôndegas suecas.

Depois de gastarmos uma bela grana em alguns cacarecos – taças novas, mantinhas para o cockpit, uma lixeira e por aí vai, foi vez de irmos ao Carrefour. Confesso que todo mundo se empolgou e tínhamos 3 carrinhos lotados de coisas para fazer caber no possante. Quase não foi possível – mas ele resistiu bravamente e rumamos abastecidos para o nosso “porto”.

Quando estávamos desembarcando as compras do Dinghy, a mecânica ligou dizendo que nosso motor estava pronto e funcionando! Ah, que alegria. Largamos tudo no barco e voltamos correndo para resgatar nosso motorzão. Finalmente liberdade – agora temos como ir e voltar das praias e portos sem ficar remando ou alugando nossos amigos! Que sensação maravilhosa!

Na 4ª feira cedo, fomos retornar o carro, mas resolvemos ainda fazer uma passada estratégica na Accastilage Difusion (loja de cacarecos náuticos) para comprar algumas peças e um cabo flutuante para o nosso dinghy. O dono do carro nos ligou avisando que ele ia atrasar cerca de 1h30 para buscar o carro, e com isso, resolvemos dar uma corrida numa loja de mergulho que tínhamos visto em uma de nossas idas e vindas. Adivinhem o que aconteceu? Saímos munidos de 4 tanques de mergulho e lastros para mergulharmos em Porquerolles, para onde rumamos na 4ª mesmo.

Chegamos por lá e fomos na cidade pegar o selo que autoriza o mergulho, já que Porquerolles fica dentro de um parque – e para tal você precisa dizer que não fará nenhum mal ao meio ambiente – e colar um selo vermelho no barco, concedido anualmente. A cidade é muito fofa, turística – para os brasileiros arriscaria dizer que lembra Paraty. Voltamos para o barco e escolhemos uma praia não tão próxima ao porto para dormir, não sem antes fazer um refresh de mergulho com a Sandra – nos preparando para o dia seguinte.

Na 5ª, acordamos bem cedinho e fomos fazer o mergulho. Trata-se de um naufrágio impecável, e a performance foi muito boa – todo mundo coube no Dinghy com equipamento, e o mergulho foi calmo e bonito – apesar de ter pouca vida marinha no mediterrâneo (suponho que tenham virado deliciosas comidas nos últimos séculos) tivemos oportunidade de ver alguns peixes por ali, e o naufrágio intacto. No final do dia, ainda aproveitamos para ir na lavanderia lavar nossas roupas e tomar um sorvete delicioso enquanto esperávamos. Roupas limpas, mergulho feito, era hora de voltar para Hyères para retornar os tanques no dia seguinte – mas ficamos com sensação de “quero mais Porquerolles” – e prometemos voltar.

Depois de uma noite tranquila na Plage des Pesquiers, atravessamos com os tanques para devolvê-los. O Fernando e o Per acharam que ia dar para levar a pé, mas logo pedi um Uber e botei os meninos dentro dele pra facilitar - ninguém merece né?

Enquanto eles devolviam os tanques e voltavam a pé, eu fiquei com a difícil tarefa de tomar conta do Dinghy que estava na praia. Vale dizer que ninguém gosta muito de dinghy na praia por aqui – então você toma várias olhadas feias e gente tentando te mandar para a outra praia – só prá não ter seu bote ali.

Essas horas de pura praia francesa me fizeram observar a relação dos franceses com a praia – que em alguns momentos lembra bastante a relação carioca, mas em outras é bastante peculiar. O francês pode ir a qualquer horário na praia: logo cedo para dar café da manhã para as crianças, dar um mergulho e ir trabalhar, na hora do almoço – para curtir as duas horas de pausa que eles tem por aqui, ou no final do dia, já que escurece quase dez da noite e se você chegar as 5, ainda tem ótimas 4h00 de praia para curtir. Além desses, muita gente da terceira idade, fazendo cruzadinhas, comendo baguettes, e botando os peitos para jogo: topless não tem idade, sexo, nem cor – todo mundo faz. Na praia também não tem nenhum tipo de comércio: nem sorveteiro, nem cerveja, muito menos o cara do Açaí e do sanduíche natural – por isso, se quiser comer algo na praia, tem que levar.

Quando os meninos voltaram da entrega fomos pros barcos – mas mais tarde eu e o Fê ainda voltamos para a praia – curtimos um sol gostoso tomando uma cervejinha e discutindo essa relação do francês com a praia, vislumbrando possibilidades de negócios (duvido que ninguém compraria cerveja (ou vinho) gelada na praia).

Na 6ª feira, acordamos cedo para lavar os equipamentos nos chuveiros que tem aqui. Enquanto o Fernando lavava fui até o porto comprar pão. O porto é muito charmoso, cheio de restaurantinhos, boutiques e lojinhas. A boulangerie não ficava atrás – foi bastante difícil sair de lá só com a baguette e sem as delícias francesas que estavam na vitrine, mas, resisti bravamente!

Na volta, terminando de lavar os equipamentos, uma senhora se levanta lá dos cafundós do banho de sol dela – e vem nos dar uma lição sobre lavar equipamentos no chuveirão da praia – só porque somos importados, afinal, naquela mesma hora tinha um cara lavando a roupa dele de mergulho, e um minuto antes passou uma moça com prancha lavando tudo também. Ela começou a dizer que era proibido, e agora que meu francês tá bem melhor, consegui discutir com ela – já que não tem placa, aviso ou registro de que não seja permitido lavar coisas de praia no chuveiro - e mandar ela de volta pro sol, com bastante educação, desejando-a um excelente sábado. A praia se divertiu, e eu e o Fernando também, voltamos rindo muito do episódio.

Resolvemos então voltar para Porquerolles – dessa vez escolhemos a praia de Notre Dame, que dizem ser uma das mais bonitas do mundo. Jogamos nossas âncoras por lá, tivemos spicy fried rice no barco dos meninos, além de trilhinhas até um dos fortes, e muito banho de mar em uma das águas mais transparentes que eu já vi na vida. Estávamos felizes da vida, nadando e curtindo, enquanto o Vincent que está com o joelho machucado tirava fotos nossas. De repente escuto uma gritariazinha: o seagull (tipo uma gaivota, que não temos aí no Brasil) passou rasteiro no nosso guarda-sol e roubou uma sacola nossa – que diga-se de passagem não tinha nada de comer! Imagina se o celular estivesse dentro? Que pilantra! Daqui em diante vamos manter as coisas melhor guardadas – nos sentimos tão seguros fora do Brasil, que nem percebemos que o nosso inimigo viria do céu! Após risadas sobre o tema, aproveitamos para jogar Petanque, um jogo similar a bocha – que desta vez foi jogado com regras inventadas – e até que chegamos perto do oficial. Na próxima, vamos jogar direitinho, aguardem!

No domingo fomos passear novamente, fazendo outra trilhinha, e depois almoçamos aqui no Saba, um lombo de porco que demorou algumas horas para ficar pronto, mas justificou a espera – assim falaram os convidados. Por fim, velejamos já num vento mais forte, velas rizadas e tudo o mais para La Badine, onde estamos e ficaremos abrigados até o vento pesado de W passar, provavelmente na 4a feira. Também estou esperando algumas correspondências que devem chegar durante essa semana no La Poste central de Hyères, e assim que tudo estiver certo vamos nos preparar para fazer a tão esperada travessia para a Córsega. Bons ventos e boa semana para todos!



Uma das vistas de Porquerolles. Dá pra chorar de tão lindo <3

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